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ciência e prática na natação

Ciência e prática na natação: por que ainda precisamos aproximar esses dois mundos?ciência e prática na nataçãoCiência e prática na natação: por que ainda precisamos aproximar esses dois mundos?

A natação é uma das modalidades esportivas mais estudadas. Fisiologia, biomecânica, treinamento, técnica e desempenho são investigados há décadas. Ainda assim, basta entrar em piscinas, clubes e escolas de natação para perceber que muitas decisões continuam sendo tomadas porque “sempre foi feito assim”.

Esse foi um dos temas de uma conversa que tive com o professor Ricardo Fernandes, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, durante o Biomechanics and Medicine in Swimming (BMS).

Pesquisador com uma longa trajetória dedicada especialmente à natação, Ricardo trouxe uma provocação importante: talvez nosso desafio não seja apenas produzir mais conhecimento, mas questionar a tradição, integrar diferentes conhecimentos e fazer com que aquilo que sabemos chegue efetivamente à prática.

Ricardo Fernandes é professor associado da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), onde atua na área de Treino Desportivo. Sua trajetória de investigação está fortemente ligada à natação e à integração de variáveis fisiológicas e biomecânicas relacionadas ao desempenho. Em 2026, é também presidente do Conselho Científico da FADEUP e diretor do Mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo.

Na natação, tradição não pode pesar mais que inovação

Todo professor ou treinador constrói sua prática a partir de referências.

Aprendemos com professores, treinadores mais experientes, livros, cursos e com nossa própria experiência. O problema começa quando aquilo que recebemos deixa de ser questionado.

Por que fazemos determinado exercício?

Por que aplicamos determinado teste?

Por que organizamos o treinamento dessa maneira?

Existe uma justificativa ou apenas repetimos algo que aprendemos?

Ricardo chama atenção justamente para a necessidade de desenvolver uma atitude questionadora. Isso não significa desprezar a experiência ou rejeitar aquilo que já funciona. Significa não aceitar uma prática apenas porque ela se tornou tradição.

Experiência é importante. Mas experiência acompanhada de reflexão é ainda mais poderosa.

Produzir conhecimento não basta: ele precisa chegar à piscina

Existe outro problema conhecido na nossa área: a distância entre pesquisadores e profissionais que estão diariamente na borda da piscina.

De um lado, pesquisadores precisam publicar em periódicos científicos e utilizar linguagem técnica, métodos e análises estatísticas necessários à produção científica.

Do outro, professores e treinadores precisam resolver problemas concretos: organizar uma aula, corrigir um nadador, controlar o treinamento ou decidir se determinado teste realmente faz sentido.

Como aproximar esses dois mundos?

Na visão de Ricardo, a responsabilidade precisa existir dos dois lados.

Pesquisadores podem produzir materiais com linguagem mais acessível e aplicada. Professores e treinadores, por sua vez, também precisam procurar a universidade, participar de congressos, fazer perguntas e apresentar aos pesquisadores os problemas que encontram na prática.

A verdadeira ponte entre ciência e prática não pode ser construída a partir de apenas uma margem.

A média de um estudo não é o seu nadador

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da nossa conversa.

A ciência trabalha frequentemente com médias. Elas são extremamente úteis para caracterizar grupos e compreender fenômenos.

Mas o treinador não treina uma média.

Ele treina uma pessoa.

Se um estudo encontra determinado valor médio para um grupo de nadadores, isso não significa que aquele número deva se transformar automaticamente em meta para todos os atletas.

Há indivíduos acima e abaixo da média. Há diferenças de idade, experiência, nível de treinamento, características físicas e inúmeras outras variáveis.

Por isso, interpretar ciência exige mais do que encontrar um número em um artigo.

O conhecimento científico deve informar a decisão, não substituir a capacidade do treinador de analisar o indivíduo.

Mais tecnologia não significa necessariamente melhores decisões

Essa reflexão também vale para testes e equipamentos.

Durante nossa conversa, discutimos o uso da concentração de lactato no treinamento. É possível medir lactato, frequência cardíaca, velocidade, comprimento e frequência de braçada e inúmeras outras variáveis.

Mas existe uma pergunta anterior:

Para que eu preciso dessa informação?

Coletar dados sem um método definido não transforma automaticamente a prática em científica.

Em algumas populações, testes mais simples e devidamente validados podem fornecer informações suficientes para orientar o treinamento. Em outras situações, avaliações mais sofisticadas podem ser justificadas.

A ferramenta deve responder ao problema — e não criar um problema apenas para justificar sua utilização.

O ensino da natação é a base do treinamento

Nossa conversa também chegou a um ponto que considero fundamental: não podemos discutir desempenho esportivo sem olhar para aquilo que aconteceu antes.

Ricardo relatou uma avaliação realizada com jovens nadadores de bom nível competitivo em Portugal. Mesmo entre atletas selecionados regionalmente, foram identificados muitos erros técnicos.

Isso levanta uma pergunta importante:

quanto do problema que tentamos resolver no treinamento poderia ter sido melhor trabalhado durante o processo de ensino?

Ensino e treinamento não são mundos independentes.

Um bom processo de aprendizagem constrói uma base sobre a qual o treinamento poderá avançar posteriormente. Quando essa base é frágil, o treinador passa parte do tempo tentando resolver problemas que foram acumulados ao longo da formação.

Como Ricardo sintetizou durante nossa conversa: “o ensino é a base de tudo”.

O futuro exige integração de conhecimentos

Fisiologia ajuda a compreender o nadador.

Biomecânica também.

Pedagogia, psicologia e teoria do treinamento também.

O problema surge quando tentamos compreender um fenômeno complexo utilizando apenas uma dessas lentes.

A própria trajetória científica de Ricardo avançou na direção da integração entre fisiologia e biomecânica, por meio de uma perspectiva biofísica do desempenho.

Para o professor e o treinador, a mensagem é ainda mais ampla: quanto maior o repertório de conhecimentos, mais possibilidades temos de interpretar aquilo que acontece diante de nós.

A inteligência artificial provavelmente ampliará ainda mais o acesso à informação e a capacidade de analisar dados. Mas ela não elimina a necessidade de conhecimento. Pelo contrário: quanto mais informação estiver disponível, mais importante será saber fazer perguntas, interpretar respostas e reconhecer limitações.

Estudar não significa saber tudo

No final da nossa conversa, chegamos a uma questão que acompanha muito do meu trabalho: por que continuar estudando?

A resposta talvez comece justamente pela aceitação de que nunca saberemos tudo.

Ricardo lembrou que professores, treinadores e pesquisadores têm dúvidas. O problema não está em ter dúvidas. Muitas vezes, o problema está em escondê-las ou não procurar respostas.

Estudar pode começar de diferentes maneiras: um livro, um congresso, um artigo, uma conversa com outro profissional ou até um conteúdo nas redes sociais.

O importante é começar — e continuar.

Ao longo da formação, novos conhecimentos também nos permitem olhar novamente para aquilo que já conhecíamos e enxergar coisas que antes não conseguíamos perceber.

É por isso que repito tantas vezes:

Estudar vale a pena.

Não porque o estudo produzirá todas as respostas.

Mas porque ele nos permitirá fazer perguntas cada vez melhores.

Assista ou ouça nossa conversa completa

Este texto foi elaborado a partir do bate-papo que tive com o professor Ricardo Fernandes, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, durante o BMS 2026.

Conversamos sobre ciência e prática na natação, formação de professores e treinadores, fisiologia, biomecânica, avaliação, tecnologia, inteligência artificial e os desafios que ainda temos pela frente.

É docente no curso de graduação e no programa e pós-graduação em educação física da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na EEFD ainda é coordenador do Grupo de Pesquisa em Ciências dos Esportes Aquáticos (GPCEA).
Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2004) e em Treinamento Desportivo (2005), e Graduado em Educação Física (2003).
Docente no ensino superior desde 2005, atuou ainda como professor de natação trabalhando com diferentes níveis de aprendizagem e aperfeiçoamento, bem como treinador de natação competitiva participando de campeonatos estaduais (RJ) e nacionais.

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