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treinamento em longo prazo

Mãe, não quero mais nadar”: 7 lições sobre a formação de nadadores

Quando um jovem diz que não quer mais nadar, a resposta (dos pais) não deveria ser imediata. Antes de insistir para que continue ou aceitar que abandone a piscina, precisamos compreender o que ele está vivendo. A formação de nadadores envolve desafios, mas também depende da qualidade das relações construídas entre atletas, treinadores e famílias.

Na live de 11 de outubro de 2026, conversei com Mariana Corbo Ramos, ex-nadadora e mãe do Lucas, sobre as dificuldades do filho e seu reencontro com o prazer de nadar.

Neste artigo, reúno sete aprendizados da conversa para professores, treinadores e pais. O objetivo é refletir sobre nossas decisões e sobre o que os jovens levam da natação para a vida.

1. Gostar de nadar não significa gostar de qualquer experiência na piscina

Lucas começou a nadar ainda bebê. Segundo Mariana, houve uma fase em que as aulas se tornaram repetitivas: ele já dominava os quatro nados, mas não encontrava novos desafios.

O ingresso em uma equipe competitiva mudou essa relação. Lucas passou a gostar dos treinos, da convivência e das oportunidades de perceber sua evolução. Mesmo quando terminava atrás dos colegas, encontrava motivos para continuar.

Mais tarde, em ambientes que Mariana descreveu como difíceis, a vontade de parar reapareceu. Essa sequência ajuda a compreender que a mesma frase pode expressar problemas diferentes: falta de interesse pela atividade, ausência de desafios ou desconforto com a maneira como o jovem é tratado.

O que levar para a prática: antes de concluir que o aluno não gosta de natação, converse sobre o que ele gosta, o que o incomoda e o que gostaria de mudar.

2. A formação de nadadores precisa de objetivos para cada etapa

Na abertura da live, apresentei uma perspectiva de desenvolvimento esportivo em que a formação e a prática por toda a vida têm espaço, junto ao caminho para o alto rendimento.

Experimentar, brincar, aprender e treinar possuem objetivos próprios. A competição pode integrar o percurso, mas seu formato e suas exigências precisam acompanhar o desenvolvimento do praticante. Antecipar expectativas de etapas posteriores pode alterar o sentido do trabalho.

Para o Lucas, as provas inicialmente ofereceram motivação. O problema apareceu quando os resultados passaram a determinar o reconhecimento que recebia.

O que levar para a prática: definir o sucesso de uma etapa exige olhar para aquilo que o jovem está aprendendo. Melhorar uma virada, compreender uma orientação e ganhar autonomia também são conquistas que merecem ser acompanhadas.

Aqui você tem acesso ao Modelo de Desenvolvimento Esportivo do Comitê Olímpico do Brasil. 

3. Estar na mesma categoria não significa estar nas mesmas condições

Mariana destacou que o Lucas nasceu no fim de dezembro e enfrentou comparações com colegas mais desenvolvidos fisicamente. A conversa trouxe duas questões importantes: idade relativa e maturação biológica.

A idade relativa diz respeito à posição do nascimento dentro do período usado para organizar uma categoria. A maturação envolve o ritmo do desenvolvimento biológico. São aspectos diferentes: o mês de nascimento, sozinho, não determina o estágio maturacional.

Por isso, resultados momentâneos exigem contexto. Uma vantagem física atual não garante sucesso futuro, assim como estar atrás dos colegas não permite concluir que o jovem tem pouco potencial.

O que levar para a prática: acompanhar a trajetória individual e evitar rótulos precoces. O planejamento deve oferecer oportunidades de desenvolvimento, em vez de transformar uma comparação temporária em uma sentença sobre o futuro.

4. Individualizar o treinamento aparece nas pequenas decisões

Um exemplo discutido na live foi o intervalo de saída das séries. Imagine dois nadadores fazendo 100 metros com saída a cada 1 minuto e 15 segundos.

Quem completa a distância em 1 minuto e 5 segundos tem 10 segundos até a próxima saída. Quem termina em 1 minuto e 12 segundos tem apenas 3 segundos. A proposta é igual no papel, mas o tempo disponível para recuperação é diferente.

Isso não significa que todos devam descansar exatamente o mesmo tempo. Significa que o treinador precisa compreender o efeito da organização escolhida e verificar se ela atende ao objetivo para cada praticante.

O que levar para a prática: individualizar envolve ajustar tarefas, ritmos, agrupamentos e orientações. Também envolve verificar se o jovem compreendeu a proposta e consegue realizá-la nas condições previstas.

5. Exigir com respeito fortalece a confiança no treinador

Mariana fez uma distinção importante: Lucas gostava dos desafios e de ter metas. Sua crítica se dirigia às situações em que, segundo seu relato, a cobrança vinha acompanhada de desvalorização e falta de respeito.

Uma mudança marcante ocorreu quando ele encontrou um treinador com quem podia conversar antes e depois das provas. A relação passou a oferecer espaço para compreender acertos, dificuldades e próximos passos.

A melhor estrutura material não garante a melhor experiência. Piscina, equipamentos e equipe de apoio importam, assim como o acompanhamento cotidiano.

O que levar para a prática: corrigir e estabelecer limites faz parte do trabalho. O jovem precisa entender a orientação e ter condições de procurar o treinador quando algo não funciona. Medo de conversar é um sinal que merece atenção.

6. Os pais precisam acompanhar sem ocupar o lugar do treinador

A experiência de Mariana como nadadora ajudou a reconhecer situações e buscar alternativas. Ainda assim, ela contou que também teve dúvidas sobre como agir e sobre o equilíbrio entre incentivar o filho e respeitar sua vontade.

Para famílias que não conhecem o esporte, esse acompanhamento pode começar com perguntas simples:

  • Qual é a proposta de formação para esta etapa?

  • Como as metas e os critérios de participação em competições são definidos?

  • Como o treinador acompanha dificuldades e conversa com os atletas?

  • Que espaço o jovem tem para expressar dúvidas e desconfortos?

Observar treinos e conversar com o filho ajuda a compreender a experiência. Muitas saídas de uma equipe podem motivar perguntas, sem explicar, isoladamente, suas causas.

O que levar para a prática: família e treinador precisam de comunicação. Apoiar a persistência também exige ouvir se o jovem quer continuar, mudar de ambiente ou buscar outra experiência.

7. Evoluir vai além de melhorar o tempo em toda prova

Durante a conversa, Mariana reconheceu uma mudança na própria maneira de orientar Lucas. A ênfase em melhorar o tempo passou a dar lugar à compreensão do que ele conseguia realizar em cada momento.

O desempenho não melhora obrigatoriamente a cada competição. Isso convida a ampliar a avaliação: o jovem compreendeu melhor a prova? Conseguiu aplicar uma orientação? Aprendeu a conversar sobre o que aconteceu?

Essa reflexão também permite valorizar a persistência do Lucas e o empenho da família sem apresentar o sofrimento como requisito para crescer. A trajetória relatada ganhou outro sentido quando ele encontrou apoio e recuperou a vontade de estar na piscina.

O que levar para a prática: metas e prazer podem caminhar juntos. Reconhecer limites, rever escolhas e aprender com uma experiência também fazem parte da formação esportiva.

O que queremos que o jovem leve da natação

Uma das passagens mais significativas da live foi Mariana contar que o Lucas havia dito que não queria parar de nadar. Para ela, essa disposição representava uma conquista que ultrapassava a participação em um campeonato.

A formação de nadadores também precisa oferecer desafios, respeitar diferenças e permitir que o jovem participe do próprio percurso.

A pergunta que fica para professores, treinadores e famílias é: nossas decisões estão ajudando esse jovem a se desenvolver e a encontrar motivos para continuar?

 

Assista à live ou ouça a conversa no podcast

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É docente no curso de graduação e no programa e pós-graduação em educação física da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na EEFD ainda é coordenador do Grupo de Pesquisa em Ciências dos Esportes Aquáticos (GPCEA).
Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2004) e em Treinamento Desportivo (2005), e Graduado em Educação Física (2003).
Docente no ensino superior desde 2005, atuou ainda como professor de natação trabalhando com diferentes níveis de aprendizagem e aperfeiçoamento, bem como treinador de natação competitiva participando de campeonatos estaduais (RJ) e nacionais.

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