
Natação infantil: o que 45 anos de experiência podem ensinar aos professores?
- Postado por Guilherme Tucher
- Data 18 de setembro de 2026
- Categorias TOP - Natação
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Aos 15 anos, Sandra Rossi Madormo deixou de ser apenas nadadora e começou a auxiliar aulas de natação. O que provavelmente ela não imaginava naquele momento é que aquela experiência daria início a uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada especialmente à natação infantil.
Recentemente, tive a oportunidade de conversar com Sandra sobre essa trajetória, sobre as transformações que acompanhou no ensino da natação e sobre um dos projetos que nasceram desse percurso: o Congresso Brasileiro de Natação Infantil (CBNI).
Nossa conversa trouxe uma reflexão importante: trabalhar com natação infantil exige muito mais do que saber ensinar os quatro nados.
Uma trajetória que começou dentro da piscina
Sandra foi nadadora antes de se tornar professora. Quando a equipe em que treinava encerrou suas atividades, seu antigo professor percebeu sua facilidade para lidar com crianças e a convidou para trabalhar com ele.
Aos 15 anos, ela já auxiliava aulas, inclusive com bebês.
Depois vieram a graduação em Educação Física, a pós-graduação em Psicomotricidade, cursos, congressos e experiências internacionais.
Mas há um aspecto particularmente interessante nessa trajetória: Sandra não se limitou a reproduzir aquilo que havia aprendido.
Sua própria experiência como atleta e algumas práticas que observava no ensino de crianças despertaram questionamentos. Por que determinadas atividades eram realizadas daquela maneira? Como respeitar o desenvolvimento da criança? Até que ponto deveríamos impor movimentos? Como tornar a aprendizagem prazerosa sem transformar a aula simplesmente em brincadeira?
Essas perguntas ajudaram a construir a profissional que ela se tornou.
Natação infantil não é treinamento de adulto em tamanho reduzido
Durante nossa conversa, Sandra lembrou de uma experiência importante de sua infância.
Seu professor utilizava brincadeiras para ensinar natação. Mas não era simplesmente “brincar por brincar”. Existia uma intenção por trás das atividades.
Essa distinção continua extremamente atual.
Durante muito tempo, o ensino da natação foi fortemente marcado por modelos mecanicistas, nos quais aprender significava essencialmente reproduzir movimentos técnicos.
Para uma criança, entretanto, aprender a nadar não deveria significar simplesmente repetir aquilo que um adulto ou um atleta faz.
A criança está em desenvolvimento.
Isso significa considerar não apenas sua dimensão motora, mas também aspectos cognitivos, emocionais e sociais.
O desafio do professor está justamente em encontrar equilíbrio: não transformar a aula em reprodução mecânica de técnicas, mas também não imaginar que qualquer brincadeira produzirá aprendizagem.
Brincar pode ser uma poderosa estratégia de ensino quando existe intenção pedagógica.
O professor de natação precisa enxergar além dos quatro nados
Essa mudança de perspectiva também amplia a própria área de atuação do professor.
Ensinar natação infantil envolve compreender desenvolvimento motor, aprendizagem, aspectos emocionais, segurança aquática, relação com os pais, pedagogia e muitas outras dimensões.
E isso ajuda a explicar uma ideia que apareceu várias vezes durante nossa conversa: formação profissional não termina na graduação.
Hoje temos acesso a uma quantidade enorme de informações. Vídeos curtos, postagens e redes sociais colocam conteúdos diante de nós o tempo inteiro.
Mas informação não é formação.
Ter contato com uma ideia é diferente de estudá-la, compreendê-la, confrontá-la com outras evidências e modificar a própria prática a partir dela.
Sandra trabalha há aproximadamente 45 anos com atividades aquáticas e continua frequentando congressos, conhecendo pesquisas e procurando novas perspectivas.
Talvez exista uma boa lição nisso: quanto mais avançamos profissionalmente, mais percebemos quanto ainda existe para aprender.
Como nasceu o Congresso Brasileiro de Natação Infantil?
Foi justamente a busca por conhecimento que ajudou a dar origem ao Congresso Brasileiro de Natação Infantil.
Ao participar de eventos internacionais, Sandra percebeu que o Brasil já desenvolvia trabalhos importantes na área. Surgiu então uma pergunta: por que não criar um espaço para reunir, discutir e divulgar esse conhecimento?
Em 2008 aconteceu a primeira edição do CBNI.
Desde então, o congresso passou a reunir profissionais brasileiros e estrangeiros e a discutir temas que vão muito além da técnica dos nados: desenvolvimento infantil, psicomotricidade, aprendizagem, segurança aquática, relacionamento com as famílias, gestão de escolas de natação, inclusão e formação profissional.
Há uma ideia importante por trás disso.
A criança não é apenas um futuro nadador. Ela é uma pessoa em desenvolvimento.
Algumas seguirão para o esporte competitivo. Muitas não seguirão. O papel da natação infantil também é contribuir para que essa criança desenvolva competência no ambiente aquático, segurança e uma relação positiva com a água que possa acompanhá-la por toda a vida.
CBNI 2027: quatro dias dedicados à natação infantil
Em 2027, o Congresso Brasileiro de Natação Infantil chega à sua 17ª edição.
O evento será realizado de 1º a 4 de abril de 2027, em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças.
A dimensão alcançada pelo congresso ajuda a mostrar como a área se desenvolveu. Segundo Sandra, a edição anterior reuniu cerca de 700 participantes, vindos de diferentes regiões do Brasil e também do exterior.
A programação não é destinada apenas a professores iniciantes.
Estudantes, professores experientes, coordenadores, gestores de escolas de natação e profissionais que trabalham em outras etapas da formação aquática podem encontrar discussões relevantes.
Isso acontece porque compreender o processo completo muda a maneira como enxergamos nossa própria atuação.
Um treinador que trabalha com atletas, por exemplo, pode não ministrar aulas para crianças pequenas. Mas, se um dia assumir a coordenação de todo o setor aquático de um clube, precisará compreender o caminho que começa na adaptação ao ambiente aquático e pode chegar ao treinamento competitivo.
Não precisamos ser especialistas em todas as etapas. Precisamos compreender como elas se relacionam.
Estarei no CBNI 2027
E essa edição terá um significado especial para mim.
A convite da professora Sandra Rossi Madormo, estarei entre os palestrantes do CBNI 2027.
Minha participação estará justamente relacionada a uma discussão que considero fundamental: o percurso do brincar ao aprender a nadar e, posteriormente, ao treinamento.
São etapas diferentes, com objetivos diferentes e necessidades diferentes.
Entender essas transições é essencial para que não antecipemos demandas que pertencem a outras fases do desenvolvimento e, ao mesmo tempo, sejamos capazes de construir uma formação aquática que permita à criança continuar evoluindo.
Será também uma excelente oportunidade para encontrar profissionais de diferentes regiões, compartilhar experiências e continuar fazendo aquilo que considero indispensável para nossa profissão: estudar.
Uma conversa que vale a pena continuar
Este texto nasceu de um bate-papo que tive com a professora Sandra Rossi Madormo, profissional com mais de quatro décadas de atuação na área e uma das responsáveis pela criação do Congresso Brasileiro de Natação Infantil e do INATI.
Conversamos sobre sua história, natação para bebês e crianças, formação profissional, segurança aquática, desenvolvimento infantil e os caminhos que levaram à criação do CBNI.
Se você quiser acompanhar essa conversa completa, assista ao vídeo no meu canal do YouTube:
E nos encontramos em São Paulo, em abril de 2027, no 17º Congresso Brasileiro de Natação Infantil.
Mais do que ensinar. Uma jornada rumo à excelência.
Também no meu PodCast
Você também pode acompanhar a minha conversa com a profa. Sandra no podcast Natação, Treinamento Esportivo e um Algo a Mais. Também há diversos episódios especiais para você.
É docente no curso de graduação e no programa e pós-graduação em educação física da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na EEFD ainda é coordenador do Grupo de Pesquisa em Ciências dos Esportes Aquáticos (GPCEA).
Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2004) e em Treinamento Desportivo (2005), e Graduado em Educação Física (2003).
Docente no ensino superior desde 2005, atuou ainda como professor de natação trabalhando com diferentes níveis de aprendizagem e aperfeiçoamento, bem como treinador de natação competitiva participando de campeonatos estaduais (RJ) e nacionais.
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