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ENSINO DA NATAÇÃO PAUTADA NA EXPLORAÇÃO DO AMBIENTE

Benefício de uma aprendizagem da natação pautada na exploração do ambiente e na manipulação de restrições

Introdução

O processo de ensino-aprendizagem na natação frequentemente recai sobre práticas tradicionais, com repetições exaustivas e foco em padrões rígidos de movimento. Contudo, uma abordagem fundamentada na exploração do ambiente, com manipulação de restrições pelo professor, oferece uma alternativa mais flexível e enriquecedora. Essa metodologia promove o desenvolvimento de habilidades adaptativas e amplia a percepção e a autonomia do aprendiz, permitindo que ele encontre as próprias soluções motoras. Neste artigo, abordamos como essa perspectiva transforma o aprendizado da natação em uma experiência mais rica e eficaz.

Desenvolvimento

Quando o professor manipula restrições no ambiente de aprendizado – ajustando variáveis como o equipamento utilizado, a complexidade da tarefa e os fatores ambientais – o aluno é estimulado a explorar e solucionar os desafios impostos de forma única. Por exemplo, ao propor natação em águas agitadas ou em diferentes profundidades, o ambiente “força” o nadador a adaptar a posição do corpo ou a frequência da braçada, promovendo aprendizado que seria difícil de alcançar em uma piscina.

Segundo a lógica da dinâmica ecológica, essas restrições criam oportunidades para que o aluno desenvolva não apenas habilidades motoras específicas, mas também importantes competências cognitivas e emocionais. Esse é um caminho que pode ser empregado na AMA e no ensino dos nados. Entre os benefícios destacados estão:

  1. Repertório motor ampliado: a variabilidade estimula o aprendiz a descobrir diferentes padrões de movimento, adaptando-se a diversas condições e necessidades. Essa abordagem é particularmente relevante para nadadores que buscam versatilidade no esporte.
  2. Percepção e autoconsciência: ao ser exposto a diferentes condições, o aprendiz desenvolve uma percepção mais sensível do ambiente aquático e de suas próprias respostas motoras. Isso ajuda na tomada de decisão e na autorregulação, tornando-o mais autônomo e confiante.
  3. Motivação e prazer na prática: explorar o ambiente em vez de seguir um roteiro estritamente técnico torna o aprendizado mais dinâmico e divertido, aumentando o engajamento e reduzindo o abandono precoce, especialmente entre crianças e iniciantes.

Aplicações Práticas

Na prática, o professor pode aplicar a manipulação de restrições para criar experiências significativas de aprendizado. Alguns exemplos incluem:

  • Propostas de desafios ambientais: organizar atividades como nadar com obstáculos ou simular diferentes condições de água, incentivando o aprendiz a ajustar sua técnica conforme necessário.
  • Uso intencional de equipamentos: incorporar snorkel, nadadeiras ou palmares para alterar os padrões de respiração, propulsão e equilíbrio, permitindo que o aluno perceba as adaptações necessárias para se mover eficientemente.
  • Alterações no foco da tarefa: pedir ao aluno que alcance um objetivo de forma criativa – como nadar utilizando o mínimo de braçadas ou permanecer flutuando em diferentes posições – favorece a descoberta de estratégias pessoais para o desafio imposto.
  • Encorajamento de experimentação: criar um ambiente onde o erro é parte do aprendizado, permitindo que o aluno explore livremente, em vez de simplesmente imitar um padrão imposto.

Essas práticas não apenas facilitam a aprendizagem, mas também preparam o aprendiz para situações inesperadas ou desafiadoras, como a adaptação a ambientes de águas abertas. Tenha paciência durante o processo de aprendizagem. Mesmo dentro de uma abordagem tradicional, não acredite que o aluno aprenderá o conteúdo em uma aula. Não faz sentido.

Conclusão

Ao optar por uma abordagem centrada na exploração do ambiente e na manipulação de restrições, o professor transforma o processo de aprendizado em uma jornada de descobertas. O aprendiz desenvolve habilidades adaptativas, maior percepção do ambiente e confiança em sua capacidade de resolução de problemas. Mais do que ensinar a nadar, esta metodologia forma indivíduos aptos a enfrentar desafios variados, potencializando não apenas o desempenho aquático, mas também habilidades transferíveis para outras áreas da vida.

Sugestão de leituras

GUIGNARD, B.; BUTTON, C.; DAVIDS, K.; SEIFERT, L. Education and transfer of water competencies: an ecological dynamics approach. European Physical Education Review, v. 26, n. 4, p. 938-953,  2020.

RIBEIRO, J.; DAVIDS, K.; SILVA, P.; COUTINHO, P.; BARREIRA, D.; GARGANTA, J. Talent development in sport requires athlete enrichment: contemporary insights from a nonlinear pedagogy and the athletic skills model. Sports Medicine, v. 51, p. 1115-1122,  2021.

É docente no curso de graduação e no programa e pós-graduação em educação física da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na EEFD ainda é coordenador do Grupo de Pesquisa em Ciências dos Esportes Aquáticos (GPCEA).
Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2004) e em Treinamento Desportivo (2005), e Graduado em Educação Física (2003).
Docente no ensino superior desde 2005, atuou ainda como professor de natação trabalhando com diferentes níveis de aprendizagem e aperfeiçoamento, bem como treinador de natação competitiva participando de campeonatos estaduais (RJ) e nacionais.

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